Discurso do
Presidente da República na Cerimónia de Homenagem ao Almirante
Gago Coutinho
Sociedade
de Geografia de Lisboa, 17 de Fevereiro de 2009
Senhor Presidente da
Sociedade de Geografia,
Senhor Ministro da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior,
Senhor Chefe do Estado-Maior General das Forças Armadas,
Senhor Chefe do Estado-Maior da Armada,
Senhor Professor Doutor José Pereira Osório,
Minhas Senhoras e meus Senhores,
A Sociedade de Geografia
de Lisboa tomou a louvável iniciativa de homenagear a insigne figura do
almirante Gago Coutinho no dia em que se completam cento e quarenta anos
sobre o seu nascimento.
Como Presidente da República, como Presidente de Honra da Sociedade de
Geografia de Lisboa e, acima de tudo, como português, associo-me com todo
o gosto a esta celebração.
O almirante Gago Coutinho foi um português de singular destino: o nosso
grande sábio-marinheiro veio a alcançar a fama como navegador de avião num
único voo.
É justo, no entanto, afirmar que Gago Coutinho merece ser recordado por
muito mais do que a travessia do Atlântico Sul.
A instituição centenária em que nos encontramos é o local privilegiado
para que possamos apreciar toda a dimensão do contributo de Gago Coutinho
para a ciência e a cultura portuguesas.
É na Sociedade de Geografia de Lisboa, de que o homenageado foi sócio
durante cinquenta e sete anos, que se celebra, anualmente, através da
atribuição do Prémio Internacional Gago Coutinho, a memória do grande
cientista.
Foi aqui recolhida a sua biblioteca e o seu espólio, os quais nos dão a
imagem multifacetada de um distinto oficial que dedicou anos da sua longa
vida ao estudo da história dos Descobrimentos e, em particular, da técnica
náutica que os portugueses desenvolveram.
Neste local histórico sentem-se ainda os ecos das muitas conferências
científicas que Gago Coutinho aqui proferiu.
Recordo, por exemplo, aquela ocasião, em 1902, em que a Sala Portugal da
Sociedade de Geografia de Lisboa assistiu à exposição de um jovem oficial
de marinha sobre um tema inovador: a telegrafia sem fios. Pioneiro também
nesse domínio, o orador não hesitou, decerto para espanto de muitos, ao
proclamar que aí estaria o meio de comunicação do futuro.
Ainda nesta sala, em 1920, Gago Coutinho apresentou aos sócios da
Sociedade de Geografia de Lisboa - instituição estatutariamente vinculada
à promoção da geografia como ciência -, a proposta de criação em Portugal
de um curso de engenharia geográfica.
Gago Coutinho foi o primeiro entre nós a destacar o papel do engenheiro
geógrafo, considerando ser o mesmo “necessário à tarefa geográfica secular
que temos diante de nós”.
O engenheiro geógrafo é, sobretudo, um especialista no domínio do
posicionamento. A sua melhor qualidade técnica é a de saber onde se está
com precisão infinitesimal.
Eis uma qualidade unanimemente reconhecida ao almirante Gago Coutinho: ele
sempre soube onde estava e sempre soube qual era o seu destino.
Em Timor, em Moçambique, em Angola, em S. Tomé, efectuou levantamentos
geodésicos e topográficos, fixou fronteiras. Com meios relativamente
rudimentares, realizou prodígios de exactidão.
A sua primeira obra como engenheiro geógrafo, realizada em Timor nos
últimos anos do século XIX, foi recentemente utilizada, com grande
proveito, na demarcação da fronteira entre a República Democrática de
Timor-Leste e a República da Indonésia.
Esta profunda ligação ao espaço de língua portuguesa, que marca o seu
trajecto como militar e como cientista, foi também evidenciada na
travessia do Atlântico Sul.
O inspirado voo, realizado no ano do centenário da independência do
Brasil, avivou a fraternidade entre as pátrias irmãs, como o demonstra a
triunfal recepção que os aeronautas aí tiveram.
Recordar hoje o almirante Gago Coutinho é, por isso, também homenagear a
unidade do mundo que fala português.
Sendo bem verdade que, como comecei por referir, o legado do almirante
Gago Coutinho ultrapassa em muito a memória da travessia aérea do
Atlântico Sul, não é menos verdade que esse voo foi a expressão culminante
da sabedoria e da inventiva de um grande homem de ciência.
O empreendimento, vencendo ares nunca dantes navegados, foi arrojado.
Feitos de igual valia já tinham sido completados por outros pioneiros da
aviação. Mas nunca se fora tão longe no voo científico.
No seu diário de bordo, Sacadura Cabral, descrevendo o momento mais
dramático da travessia, deixou claro o verdadeiro móbil dos aeronautas
portugueses: se a gasolina acabasse e se vissem forçados a pousar, ao
acaso, no meio do oceano, “ficaria por demonstrar aquilo que pretendíamos
provar, isto é, que a navegação aérea é susceptível da mesma precisão que
a navegação marítima”.
Foi, portanto, uma demonstração científica que os levou a arriscar tudo,
incluindo a própria vida, naquele voo entre a Cidade da Praia, em Cabo
Verde, e os penedos de S. Pedro e S. Paulo. Aí, após mais de onze horas
sem beneficiar de quaisquer referências à superfície, num avião pequeno e
demasiado lento, com a gasolina a esgotar-se no tanque, tiveram de
descobrir na imensidão do Atlântico um minúsculo penedo com duzentos
metros de comprimento.
Os cálculos do imperturbável Gago Coutinho não podiam falhar, sob pena de
tudo terminar ingloriamente. Como de costume, não falharam. Feito
extraordinário no momento em que a aeronavegação dava os primeiros passos.
Como foi possível? “Nós não fomos heróis” - explicou Gago Coutinho, dando
nota da sua proverbial simplicidade – “Usámos de manhas de geógrafos, que
se orientam pelo Sol e pelas estrelas”.
Manhas, talvez. Mas o certo é que ninguém antes se lembrara de as usar.
Tratava-se, afinal, de inovações científicas. Inovações que permitiram um
passo de gigante na história da aviação.
A travessia foi realizada com certeza antecipada quanto ao rumo seguido. A
navegação depende do conhecimento exacto da posição em cada momento e da
direcção e distância ao ponto de destino. Pois ao longo do caminho, Gago
Coutinho e Sacadura Cabral sempre souberam exactamente onde estavam e qual
o rumo e a distância até ao objectivo que tinham traçado.
Gago Coutinho serviu-se de um sistema integrado de navegação aérea que
criou e aperfeiçoou. Sistema composto pelo famoso sextante de horizonte
artificial, a que gostava de chamar astrolábio de precisão.
Sistema que também incluía métodos inéditos de cálculo e de pré-cálculo de
tal forma apurados que em três minutos – e isto sem computador e sem
calculadora electrónica - permitiam ao navegador Gago Coutinho registar no
Diário de Navegação o local preciso onde se encontravam.
Assim dotados, os aviadores chegaram com absoluta precisão ao seu destino.
Deste modo, para além da aventura humana assistiu-se a um prodígio
científico. O grande pioneiro da aviação, o brasileiro Santos Dumont, bem
o disse: “… o raid de Coutinho e Sacadura foi matematicamente realizado”.
O almirante Gago Coutinho era um espírito positivo, racional e matemático.
Acreditava no método científico que desenvolveu a tal ponto que nele
confiou serenamente a sua vida e a do seu companheiro de viagem.
O homem de ciência que homenageamos ensinou-nos que, para termos confiança
em nós, precisamos de saber onde estamos e para onde vamos. Eis a mais
profunda lição do eminente engenheiro geógrafo que foi o almirante Gago
Coutinho.
Presto homenagem à memória de um grande português.